Como lidar com o trote universitário?

Tempo de leitura: 12 minutos

Trote. Para quem está prestes a dar os primeiros passos no ambiente universitário, essa pode ser uma palavra que causa muito ansiedade. Afinal, é comum que as primeiras experiências despertem uma série de sentimentos, principalmente, uma mistura entre receio e felicidade.

Primeiro dia na escola, primeiro beijo, primeiro salário, primeira prova importante e primeiro dia na faculdade. O trote, socialmente, é uma tradição universitária que marca o seu início como calouro, ou, popularmente, bicho: o começo da sua experiência na faculdade.

No entanto, a tradição, presente no Brasil desde o século XVIII, gera opiniões controversas. Há quem acredite que essa é uma forma de interação eficiente entre os alunos e há quem veja o trote com maus olhos graças aos abusos recorrentes durante a, suposta, brincadeira.

Isso, porém, não significa que o melhor a se fazer em todos os casos é evitar o trote. Algumas dicas podem ajudar o calouro a aproveitar o momento da melhor maneira possível. O importante é reconhecer os limites e saber o que fazer perante cenas que os ultrapassem. 

Como funciona o trote?

Presente em grande parte das faculdades no Brasil, públicas e privadas, o trote varia em cada instituição. As atividades mais comuns para identificar os bichos são raspar o cabelo dos meninos e usar tinta no corpo e na roupa. Também há o pedágio, em que os novatos pedem dinheiro para carros no semáforo e pessoas na rua. O montante arrecadado é gasto depois com uma festa para todos.

Além dessas brincadeiras tradicionais, existem outras mais cansativas e vexatórias. Alguns exemplos são cortar a roupa, usar alimentos como peixe e pasta de alho, ou, então, o chamado “elefantinho”, em que os calouros entrelaçam as mãos por baixo das pernas uns dos outros e precisam percorrer um caminho dessa maneira. Há ainda quem precise cuidar de um ovo sem deixar quebrá-lo, escovar os dentes com álcool, passar um palitinho de boca em boca ou cantar canções compostas especificamente para a ocasião.

Se acabasse por aí, o trote não causaria tanta polêmica e não seria um assunto para os portais de notícia. Mas, infelizmente, não é assim que funciona. As brincadeiras, diversas vezes, ultrapassam os limites, transformando a festa em tragédia.

Quando a brincadeira passa dos limites?

O histórico dessa tradição nem sempre foi amigável. Na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, por exemplo, foi registrado o primeiro caso de violência em um trote. Os calouros foram obrigados a comer alimentos com fezes e beber taças de vinho com urina. Isso ocorreu no século XV. Mais de 600 anos depois, o trote permanece em muitas ocasiões ultrapassando os limites e desumanizando os calouros.   

No Brasil, os trotes começaram a ganhar mais visibilidade em 1999, quando um calouro de Medicina morreu afogado na Universidade de São Paulo. Não foi algo simples. Um aluno perdeu a vida graças aos exageros de um trote. O certo, então, seria que os casos de agressão e violência diminuíssem, mas, aparentemente, não foi isso que aconteceu.

Em 2009, um calouro foi chicoteado, forçado a rolar em fezes de animais, sofreu agressões e ainda foi amarrado em um poste no Centro Universitário Anhanguera Educacional. Já em 2015, calouros das Faculdades Adamantinenses, em Adamantina, São Paulo, foram recebidos com ácido por seus veteranos. A brincadeira de mau gosto causou queimaduras graves nos estudantes e um deles quase perdeu a visão. Será que isso é dar as boas-vindas a alguém?

O mesmo tipo de atitude violenta e sem noção se repete todos os anos nas universidades. Meninas “leiloadas”, pessoas amarradas e agredidas por não concordarem em realizar certa atividade, menores de idade em coma alcoólico, uso de substâncias tóxicas como um desinfetante corrosivo, entre outras diversas maneiras de rebaixar o calouro.

O excesso é a principal causa para o trote dar errado e se desviar da sua intenção inicial: ser um momento divertido, de integração. Esse sentimento de superioridade de quem aplica o trote acarreta em machismo, racismo, homofobia, violência física e psicológica. Os calouros passam a ser propriedade dos veteranos e a cultura da impunidade faz com que os bichos pensem que devem se submeter à humilhação em silêncio.

Vira um ciclo vicioso. Quem sofre o trote pesado e violento no ano anterior deseja fazer o mesmo com quem está entrando na faculdade. A excitação do momento e o sentimento de, finalmente, estar na posição de opressor, faz com que o veterano não pare para analisar o modo como está agindo. O trote, assim, se transforma em um retrato exacerbado do pior lado da sociedade.

O que a lei diz a respeito do trote universitário?

O caso trágico citado anteriormente, do calouro de Medicina da USP, forçado a entrar em uma piscina sem saber nadar, o que acarretou em sua morte por afogamento, levou o governo do estado de São Paulo a tomar uma atitude drástica. Desde 1999 (o ano da morte do calouro), a lei estadual nº 10.454 proíbe o trote universitário promovido sob coação, agressão física, moral ou qualquer outra forma de constrangimento em todas as escolas superiores e faculdades estaduais.

Já em Minas Gerais, a lei nº 21.165, sancionada em 2014, proíbe o trote estudantil violento em instituições de Ensino Médio (públicas ou privadas), bem como nas universidades públicas estaduais. Ademais, municípios como Pelotas, no Rio Grande do Sul, e Barretos, em São Paulo, possuem suas próprias leis municipais que proíbem o trote violento, após registrarem casos de abuso em universidades localizadas dentro de suas imediações.

E apesar de, em âmbito federal, não existir ainda uma lei que proíba e puna exageros nos trotes universitários, se você se sentir lesado durante a “brincadeira”, saiba que está respaldado pelo Código Penal Brasileiro e pode buscar a justiça. Atos como lesão corporal (artigo 129), injúria (artigo 140), ameaça (artigo 147) e constrangimento ilegal (artigo 146) estão configurados como infração no Código e são passíveis de penalidades.

Ademais, as próprias instituições de ensino podem ser responsabilizadas e chamadas a prestar esclarecimentos, caso algum calouro denuncie a ocorrência de trote violento. Seja por meio do Código de Defesa do Consumidor ou do Código Civil, o aluno pode buscar um advogado e entrar com um pedido de indenização por danos morais contra a faculdade, caso ela não tome alguma atitude frente ao ocorrido.

Justamente por isso, a maioria das instituições de ensino superior, cientes de sua responsabilidade sob o bem-estar e segurança de seus novos alunos, possui regulamentos internos, que coíbem o abuso durante os trotes.

Como não há uma lei nacional que valha para todas, cabe às faculdades e universidades decidirem o que é permitido ou não durante a prática. Muitas, inclusive, já a proibiram totalmente. As punições para quem passa da conta vão desde a suspensão até mesmo ao desligamento total e cancelamento da matrícula dos alunos envolvidos nos atos de violência.

Então, se ao participar do trote você for vítima de tentativa de abuso, violência física ou psicológica, constrangimento e humilhação, ou se tentarem obrigá-lo a fazer algo que você não queira, agora você já sabe que possui o respaldo da lei para buscar os seus direitos e a punição dos responsáveis. Faça valer os seus direitos!

Ir ou não ir ao trote?

Se você acompanhou esse post até aqui, deve estar nesse momento bastante receoso sobre participar do trote de sua nova faculdade, certo? E não é para menos! Com todos os casos que não tiveram um final feliz, é normal se questionar se vale a pena ir ao trote.

Porém, é necessário esclarecer que não é sempre que o trote acaba se tornando uma experiência traumática na vida dos calouros. Por isso, é preciso pensar com cuidado, pois, apesar dos exageros, participar dessa integração é uma ótima maneira de começar o seu círculo de amigos no ambiente universitário.

Para ficar mais calmo e seguro, antes de tudo pesquise sobre como funciona o trote na sua universidade. É somente no primeiro dia ou na semana inteira? Já aconteceram agressões? Como a diretoria se comporta perante abusos? De posse dessas informações, você já saberá o que lhe espera e poderá ir preparado, sem medo de alguma surpresa desagradável.

Entretanto, mesmo que o trote da sua universidade não seja tão pesado, se você decidir que vai participar, mantenha o espírito esportivo, viu? Isso porque, com certeza, farão piadinhas, haverá muita tinta e outras brincadeiras. Se você não é o tipo de pessoa que lida bem com piadas e zoações, é melhor ficar em casa, sob o risco de se estressar ou acabar arrumando confusão. Respeite seus limites individuais acima de tudo, sempre.

Além disso, uma estratégia que costuma dar super certo é tentar se enturmar com os outros calouros antes, para não chegar sozinho. É muito mais fácil se impor quando você está em um grupo na mesma situação. Ou, então, se você conhecer algum veterano, melhor ainda. Ele poderá te orientar sobre como ir e o que acontece na integração, além de ficar ao seu lado durante o trote e proteger você de alguma tentativa de abuso.

Não quer raspar o cabelo, cortar sua roupa ou se submeter a algo que ache humilhante? Fale! Não se cale. Tente dialogar com os veteranos e peça para que respeitem a sua escolha. Tenha a ciência de que, provavelmente, você será taxado de sem graça e receberá alguns apelidos, mas, tudo bem, desde que você saia do trote sabendo que fez apenas o que se sentia à vontade. Isso é o importante. Não ignore os seus sentimentos somente para agradar aos outros.

E, se você presenciar qualquer outro caso de abuso, interfira. Se posicione e proteja seus colegas. Comunique a faculdade, seus pais ou até mesmo a polícia, caso as coisas saiam do controle. Não tenha medo. O calouro também tem voz, não colabore com a cultura da impunidade.

Qual é o lado bom da tradição?

Mas nem tudo é tão terrível quanto se imagina! Cada vez mais, os próprios alunos e as universidades buscam por alternativas melhores aos trotes convencionais e violentos. A USP, por exemplo, tem um número especial para controlar o que acontece nos trotes, o chamado Disque Trote (0800 012 10 90).

Outro caso são as frentes feministas já presentes em diversas faculdades espalhadas pelo país, que costumam organizar campanhas para conscientizar as “bichetes” sobre o machismo nos trotes, além de ficarem por perto para defendê-las e evitar qualquer violência de gênero.

Há ainda o chamado trote solidário, em que os calouros, em vez de passarem por humilhações, precisam fazer algo em prol da sociedade, como levar 1kg de alimento para alguma instituição ou doar sangue no hospital, algo que acontece, inclusive, no UniBH. Algumas universidades também realizam a semana de integração, com palestras, aulas inaugurais, shows de talento e outras atividades dentro da própria instituição, tornando a recepção mais controlada e agradável.

Lembre-se que o trote será o seu primeiro contato com o ambiente universitário. Então, sua primeira experiência não precisa render lembranças ruins. Pelo contrário, no trote, provavelmente, você conhecerá os seus melhores amigos, que ficarão ao seu lado durante os anos que a faculdade lhe reserva e depois que ela acabar.

Assim, tenha sempre em mente que o objetivo geral de todo o trote universitário é o de ser apenas uma brincadeira saudável e divertida e uma forma de integrar calouros e veteranos. Obviamente, a noção dos limites aceitáveis quem dá é você.

Tenha bastante claro que você tem todo o direito de não fazer nada que lhe deixe desconfortável e que pode falar abertamente sobre o que você não irá aceitar ou tolerar. Com isso em mente, relaxe, coloque aquela roupa velhinha e vá se divertir e comemorar a sua entrada no mundo universitário!

E, você, calouro, futuro veterano, quando chegar a sua vez, não dê continuidade a esse ciclo de violência e abuso, faça a diferença e transforme o trote no que ele deveria ter sido desde o seu início: um ritual de boas vindas saudável.

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